quarta-feira, 28 de abril de 2010

06.

10.
Ana Paula.
Caos, palavra bonita que cabe, letra a letra, em quatro dedos, começando do mindinho até o indicador; escrevo com hidrocor preto a palavra na mão, jamais faria uma tatuagem assim. Há muita coisa para ser feita, porém estou aqui há duas horas, sentada no chão com um hidrocor preto, desenhando o rodapé da minha sala enquanto a vida acontece lá fora: é quarta-feira.
Ontem a semana acabou – nada parece ter prosseguimento – porque descobri a obsessão do homem em ligar o chão ao céu. Um homem estacou frente ao prédio mais alto que fica na avenida mais rápida da cidade. O vi inclinar a cabeça para trás e se emocionar, quase cair em pranto, se ajoelhar frente ao prédio e elevar as mãos ao céu. O homem quer crescer para o céu, terminar a tarefa mal sucedida com Babel. Para tanto se aglomera, limita os espaços para que os desavisados não tenham escolha e ergam os olhos - vejo os prédios como dedos indicadores do objetivo humano -; nada cresce para o horizonte, até mesmo o mar e sua imensidão horizontal não fazem sentido, o mar apenas liga lugares comuns. Vamos nos aglomerar, apertarmos-nos ao máximo até que toda massa convirja para cima, o céu é o limite.
Agora me encontro em minha sala, a semana suspensa, estou desenhando o rodapé que daqui percorrerá o resto do apartamento, seguirá para o corredor, entrará nos apartamentos, invadirá as escadas, percorrerá as ruas, avenidas, praças e becos, depois cidades, países, continentes. Minha arma contra os prédios é o rodapé.

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VOYEUR

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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