quarta-feira, 21 de abril de 2010

01.

1.
Luísa.
Sobre a arte de desarrumar as coisas Ana Paula sabia bem. Sempre que chegava em casa cansada e ansiosa ligava o mesmo disco do Echo and The Bunymen – cujo nome ela nunca disse, mas disse adorar e ouvi-lo repetidamente, com intervalos de dez a quinze minutos – e saía pela casa a desarrumar tudo. A sala sofria com os discos, os livros, as almofadas, os enfeites etc., que ocupavam novos lugares, trocavam funções, o vinil do Beach Boys era frequentemente penetrado pelo prego reservado originariamente para um quadro, sob as mesas o que antes estava sobre ela, sentado no sofá a carranca comprada em uma cidadezinha ao longo do São Francisco... Essa bagunça repercutia pela casa.


2.
Ana Paula.
Mamãe desculpe-me, mas tinha que acontecer. Envergonharam-me – ou foi eu que envergonhei vocês? As coisas serão melhores, não gostaria que me vissem assim. Avise a todos e reze por mim. Diga a papai que eu destruí a lápide do túmulo dele.
Ana.


3.
Elisa Cardoso, gerente da Global Fitness, sobre Ana Paula.
Trabalhava a contragosto, atendia mal os clientes, vendia pouco. Trabalhou dois meses aqui. Rebelde, idolatrava pessoas que estão fora de moda e criticava a despolitização das colegas. Não a demiti, no fundo gostava do seu jeito, embora não vendesse como as outras. Numa terça-feira ela se demitiu sem dar nenhuma justificativa.


4.
SMS de André para Ana Paula.
ana, tive que ir embora mais cedo, não estava me sentindo muito bem, “festa estranha com gente esquisita”. os seus amigos são um pouco porra-louca, né? hahaha... nos vemos por aí. me ligue qualquer dia desses para irmos a um barzinho mais tranquilo, ok? beijos.

Um comentário:

VOYEUR

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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