sexta-feira, 7 de maio de 2010



02.
Agora trabalho para Zurzo. Não atendi ao telefone, mas – me pergunto como – sei tudo o que é para ser feito. Serei sua pintora, ou melhor, a pintora de suas mortes. Sim, eu sou pintora. Onde está o telefone que agora a pouco tocava? Concordo com Zurzo, para morrer é necessário existir, e, sendo a morte a condição que põe termo à vida, nada mais justo que pintar o corpo prestes à putrefação, imortalizando-o na tela, dando-lhe status de obra-prima, e a seu autor, o assassino, a remissão dos pecados e a elevação da alma.

03.
O Intérieur (Le Viol) do francês Edgar Degas será a inspiração para o primeiro trabalho. 

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O LIVRO DE ANA PAULA

01.
Começo por achar tudo muito estranho: o telefone está tocando. Eu nunca tive telefone em casa. Outra coisa: de quem é esta roupa que visto? Tampouco este é o meu penteado. O meu próprio nome me parece uma imposição, e eu não me lembro do que fazia, do que via e sentia dez segundos atrás quando proferi a primeira letra, C.
Sei que o telefone irá tocar e uma voz irá me dizer seu nome, “sou o Zurzo”, a voz não me parecerá estranha, “tenho um trabalho para você”, “desde quando faço trabalhos?” irei perguntar, ao que ele irá me responder “desde agora”, com uma convicção, uma brutalidade na voz gutural, não terei outra opção “está bem”. 

07.

11.
Edgar.
Você é uma mentira. Dei-lhe mais quinze minutos, porém você não estava lá depois de transcorrido o prazo. Embora fosse meio de tarde – ainda –, eu tinha certeza de que não chegaria a tempo, foi quando descobri o que você é: uma mentira.


12.
Luísa.
Ana, toquei o interfone do seu apartamento na sexta, no sábado e no domingo, porém você não atendeu nenhuma das vezes! Também não atendeu meus telefonemas... Eu fiz alguma coisa?

13.
Edgar.


Talvez seja necessário o sumiço, o desaparecimento, por isso não lhe procurarei mais. As coisas que fazemos – os erros! – nos doem tanto que nos escondemos do mundo – um mundo limitado a poucas pessoas, no caso. Ana Paula, você tem um nome bonito, os olhos... Espero que pinte um quadro do seu desaparecimento e depois o jogue fora, assim como fez comigo.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

00.

Ele tinha as mãos grandes e pesadas que ao segurar-me pela cabeça daquela maneira eu tinha certeza de que ele poderia estourar meu crânio quando quisesse. Quando gritei por socorro ele me empurrou contra a parede, onde bati a cabeça e caí no chão, batendo a cabeça novamente. Desorientada e surda percebi sua mão rasgar minha blusa e meu sutiã em apenas um golpe. Deu-me um tapa que me deixou cega por um tempo (segundos, talvez minutos?), e, embora houvesse visto o rosto dele e ele me fosse conhecido, não conseguia ligá-lo a ninguém, o susto e a surra varreram-no da minha memória.  Quase desfalecida, inutilizada, e incapaz de qualquer esforço, senti, enfim, uma sombra de carinho, as mãos ásperas levantaram minha saia até a altura do umbigo, desceram minha calcinha suavemente aos calcanhares, acariciaram minhas pernas e, com os lábios grossos, beijou-me a boceta. Inesperadamente me penetrou, violento (embora amável), esfolando-me por dentro até gozar, trinta segundos depois (ou terão sido trinta minutos?). Com a mão em concha aparou o sêmen que escorria pela minha perna e que havia se misturado ao meu sangue e me lambuzou o rosto com violência – o meu rosto cabia na palma da mão dele. Quando tornei a enxergar o reconheci, não contive a surpresa, balbuciei seu nome. Com um sorriso sarcástico e os olhos enfurecidos colocou as mãos em meu pescoço de forma suave e me estrangulou até a morte. Depois de morta ele ainda me fodeu mais três vezes. Por fim, escreveu com meu batom vermelho em todo o meu corpo algo que não consegui ler.

VOYEUR

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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