para Ângela
De pouco vale – quase nada – que o pai explique a ele que os tapas que dá na mãe não são violentos, que os puxões de cabelo são ocasionais, papai anda muito cansado do serviço e mamãe não o ajuda porque fica sempre perguntando como foi seu dia se quer o jantar agora e ela sabe que o dia foi péssimo porque o trabalho de papai é estressante e não é tão bom quanto as idas ao parque nos domingos de manhã pra andar de pedalinho e comer pipoca doce e algodão doce e beber coca-cola.
Na hora das brigas, que ocorrem geralmente três vezes na semana, em dias alternados, mais especificamente nos dias pares – que sábado é dia de transar e domingo tem parque e depois papai vai beber cerveja que tem gosto amargo no bar com os amigos e sempre volta com muito cheiro de cigarro – ele tampa os ouvidos com duas pelúcias, o tigre Tigo, e o sapo Jão, e se esconde em baixo da cama, espiando o pouco que consegue ver pela fresta da porta do quarto dos pais que fica em frente ao seu. Ele chora, às vezes, quando a mãe pede para parar e o pai a chama de puta e lhe esbofeteia o rosto, porque acontece o mesmo com ele quando ele pede que a mãe pare de lhe bater, e ela o chama de moleque e de estorvo, esbofeteando-lhe o rosto com a mão doente de costureira.
Durante um tempo papai ficou bonzinho porque mamãe tava ficando gorda. Ele vai ganhar um irmão, a mãe diz que a barriga dela crescerá quase tanto quanto a barriga do pai, não porque ela está comendo muito, mas porque ela está gerando um filho, da mesma forma que o gerou, quatro anos atrás. Ele não compreende muito, mas coloca a mão na barriga da mãe e espera por um chute. Pergunta se o bebê chuta por não gostar dela, claro que não, ele ama mamãe assim como você me ama, porque por nove meses somos uma só pessoa. Ele acha estranho, como que mamãe carrega uma coisa dentro dela que tá crescendo e chutando sua barriga e comendo o que ela come e fazendo xixi e cocô dentro dela? Seria partindo disso que ele poderia ter entendido o amor anos depois.
É aniversário de vinte anos da mãe e tem festa, sábado é um dia bom. Todos estão lá, até mesmo o primo da mãe com quem ela havia perdido a virgindade aos treze anos, e o pai sabe disso. Ele ouve a avó e a mãe conversarem, a avó diz que vinte anos é uma idade importante, simboliza a entrada na vida adulta, embora ela já tivesse amadurecido bastante ao ganhar o primeiro filho – e amadurecerá muito ao ganhar o segundo, daqui a três meses, você verá. Ele não sabe se será menino ou menina, nem mesmo nome ainda deram ao bebê, ou, se deram, não lhe contaram.
No fim da festa papai tava muito bêbado porque passou o dia todo bebendo pinga com os amigos que foram na festa e beberam muita pinga e cerveja também. O pai não cumprimentou o primo da mãe, o ignorou. Na saída, viu que a mãe e o primo conversaram algo e sorriram, depois se abraçaram e ele foi embora. Ao entrar em casa para arrumar a bagunça da festa, quando todos já haviam ido embora, o pai perguntou à mãe o que ela conversou com o primo. Ela disse que nada demais, que ele apenas desejou felicidade à família e ao bebê que estava por vir. O pai a chamou de mentirosa e disse que os dois estavam marcando um encontro, então deu um soco no rosto da mãe, que caiu desvairada no chão. Papai chutou mamãe umas quatro vezes na barriga igual quando ele me levava para ver o jogo de futebol e que ele chutava muito a bola e marcava gols. Depois arrastou a mãe pelo o cabelo e lhe deu um tapa no rosto, mas ela já havia desmaiado. Quando o pai viu que sangrava por entre as pernas da mãe, libertou-se da embriaguez e se desesperou. Ligou para o um-nove-três, pediu uma ambulância com urgência, a mulher estava grávida, havia tropeçado e caído violentamente no chão, achava que ela havia abortado. Quando a ambulância chegou o pai recusou a acompanhar a mãe alegando que o filho não poderia ficar sozinho em casa, também não poderia ir ao hospital porque o filho tinha medo. A ambulância levou a mãe, porém os médicos desconfiaram dos ferimentos e ligaram para a polícia relatando o que suspeitavam que havia acontecido. Papai sabia que iria ser preso e se desesperou chorando muito e eu nunca vi ele chorando e ele chorava mais que eu quando apanhava e ele gritava não que ele matou o filho dele mas eu disse que eu tava bem que eu tava vivo mas papai disse que eu não era filho dele devia ser filho de algum outro homem porque mamãe era uma puta depois disse que amava mamãe muito que ele tava na merda que a polícia ia prender ele e agora ele tinha que fugir mas a polícia bateu no portão e ele não quis abrir e os vizinhos gritavam assassino e a polícia quebrou o portão e entrou e papai tentava fugir pulando o muro mas os vizinhos pegaram ele e a polícia o levou e eu fui dormir na casa de titia que fica perto de casa mas não tem papai nem mamãe só Tigo e Jão que agora ficam nas minhas orelhas o tempo todo.
