sábado, 7 de agosto de 2010

ANA PAULA ARREBATADA.
para Laura Cohen

A.

Ele tinha as mãos grandes e pesadas que ao me segurar pela cabeça daquela maneira eu tinha certeza de que ele poderia estourar meu crânio quando quisesse. Quando gritei por socorro ele me empurrou contra a parede, onde bati a cabeça e caí no chão, batendo a cabeça novamente. Desorientada e surda percebi sua mão rasgar minha blusa e meu sutiã em apenas um golpe. Deu-me um tapa que me deixou cega por um tempo (segundos, talvez minutos?), e, embora houvesse visto o rosto dele e ele me fosse conhecido, não conseguia ligá-lo a ninguém, o susto e a surra varreram-no instantaneamente da minha memória.  Quase desfalecida, inutilizada, e incapaz de qualquer esforço, senti, enfim, uma sombra de carinho, as mãos ásperas levantaram minha saia até a altura do umbigo, desceram minha calcinha suavemente aos calcanhares, acariciaram minhas pernas e, com os lábios grossos, beijou-me a boceta. Inesperadamente me penetrou, violento (embora amável), esfolando-me por dentro até gozar, trinta segundos depois (ou terão sido trinta minutos?). Com a mão em concha aparou o sêmen que escorria pela minha perna e que havia se misturado ao meu sangue e me lambuzou o rosto com violência – o meu rosto cabia na palma da mão dele. Quando tornei a enxergar o reconheci, não contive a surpresa, balbuciei seu nome. Com um sorriso sarcástico e os olhos enfurecidos colocou as mãos em meu pescoço de forma suave e me estrangulou até a morte. Depois de morta ele ainda me fodeu mais três vezes. Por fim, escreveu com meu batom vermelho em todo o meu corpo algo que não consegui ler.

B.
01.
Luísa.
Sobre a arte de desarrumar as coisas Ana Paula sabia bem. Sempre que chegava em casa cansada e ansiosa ligava o mesmo disco do Echo and The Bunymen – cujo nome ela nunca disse, mas disse adorar e ouvi-lo repetidamente, com intervalos de dez a quinze minutos – e saía pela casa a desarrumar tudo. A sala sofria com os discos, os livros, as almofadas, os enfeites etc., que ocupavam novos lugares, trocavam funções, o vinil do Beach Boys era frequentemente penetrado pelo prego reservado originariamente para um quadro, sob as mesas o que antes estava sobre ela, sentado no sofá a carranca comprada em uma cidadezinha ao longo do São Francisco... Essa bagunça repercutia pela casa.

02.
Ana Paula.
É como se eu vivesse sentada no ombro de um gigante: consigo enxergar por cima tudo o que acontece, com nitidez e imparcialidade. É o preço que pago pela certeza da inconstância de mim mesma, consegue me entender? Trago comigo essa forte sensação de que posso não estar aqui com vocês amanhã. Brevidade, esse o sentimento.

03.
Edgar.
Pintora. Um metro e setenta de altura? “Ana, você precisa ser mais amável”. Eu me pergunto, mas não sei o motivo de não ter apaixonado a artista. Ana, você é um sonho / do qual não quero despertar / Meu amor por você é tamanho / bem maior que o céu e o mar. Eu fazia poemas para ela, dava flores, chocolates, ursos de pelúcia – uma vez ela me disse “obrigada” -, nada a comovia, sempre com o olhar forte, penso que exclusivo das pintoras. Ela me ensinava que o problema do romance contemporâneo não está na história, mas na narração; com o advento do cinema fazem-se desnecessários os romances cervantescos (crio um novo adjetivo). Nunca passei de escritor medíocre que narra lindas histórias de amor, todas com Ana Paula. Ela me mostrou o fantástico, afogou-me em uma lagoa, tive sorte por ter naquele dia a companhia de um amigo que me salvou do sinistro – havia apenas dito a ela, “Ana, quero ter um filho com você”. Na minha obra, preciso encontrar o sincronismo e o sinfronismo; na minha vida, preciso encontrar o amor de Ana Paula.

04.
Ana Paula.
Quero ser índio, exilar-me na mata, irmã dos bichos e de tudo. Minha beleza é, ao mesmo tempo, minha inimiga, atraio meus inimigos pelos olhos – sem que eles saibam. Se cruzo os braços e sorrio, tornam-me objeto, não querem ouvir a minha voz, querem-me nua, apenas, em uma cama larga, lençol cheirando a amaciante. Pinto na tela meus traços, deformo meu rosto com o pincel, e assim me amo, como creio jamais ter sido amada. Sou bela, enquanto tudo ao meu redor rui silenciosamente.

05.
Primeira narrativa.
Faltava uma explicação e muitas respostas - Quantos dias? Quantos nomes? Quantos lugares? ... – na casa vazia. Havia dia em que as cores das paredes faziam sentido, então permaneciam, embora no fundo não fizessem sentido algum. Quando não faziam sentido (para ela), ela usava o pincel amarelo – cujo número/modelo/marca/etc. é desconhecido – de tamanho médio para modificar a vida no quarto, com toda a calma de quem consegue controlar o desespero. “Não me falem em sorte, desde o início havia a probabilidade...”. O motivo da construção/criação era a desconstrução/destruição, com 50% de chance de resultado positivo.
Recortar livros, retirar inspiração, unir frases e colá-las em folhas A4 recicladas. O tempo retrátil, calendários sem lógica. Nada deveria ser vivido em sobriedade, nem mesmo os barulhos, os ruídos, chiados, miados. A divisão da vida em etapas renegada – e consequentemente modificada através de subtrações, adições e multiplicações. Ana Paula estava na etapa eufórica, racionalmente desvairada.

06.
Ana Paula.
Caos, palavra bonita que cabe, letra a letra, em quatro dedos, começando do mindinho até o indicador; escrevo com hidrocor preto a palavra na mão, jamais faria uma tatuagem assim. Há muita coisa para ser feita, porém estou aqui há duas horas, sentada no chão com um hidrocor preto, desenhando o rodapé da minha sala enquanto a vida acontece lá fora: é quarta-feira.
Ontem a semana acabou – nada parece ter prosseguimento – porque descobri a obsessão do homem em ligar o chão ao céu. Um homem estacou frente ao prédio mais alto que fica na avenida mais rápida da cidade. O vi inclinar a cabeça para trás e se emocionar, quase cair em pranto, se ajoelhar frente ao prédio e elevar as mãos ao céu. O homem quer crescer para o céu, terminar a tarefa mal sucedida com Babel. Para tanto se aglomera, limita os espaços para que os desavisados não tenham escolha e ergam os olhos - vejo os prédios como dedos indicadores do objetivo humano -; nada cresce para o horizonte, até mesmo o mar e sua imensidão horizontal não fazem sentido, o mar apenas liga lugares comuns. Vamos nos aglomerar, apertarmos-nos ao máximo até que toda massa convirja para cima, o céu é o limite.
Agora me encontro em minha sala, a semana suspensa, estou desenhando o rodapé que daqui percorrerá o resto do apartamento, seguirá para o corredor, entrará nos apartamentos, invadirá as escadas, percorrerá as ruas, avenidas, praças e becos, depois cidades, países, continentes. Minha arma contra os prédios é o rodapé.

07.
Edgar.
Você é uma mentira. Dei-lhe mais quinze minutos, porém você não apareceu. Embora fosse meio de tarde – ainda –, eu tinha certeza de que não chegaria a tempo. Descobri o que você é: uma mentira.

08.
Edgar.
Talvez seja necessário o sumiço, o desaparecimento, por isso não lhe procurarei mais. As coisas que fazemos – os erros! – nos doem tanto que nos escondemos do mundo – um mundo limitado a poucas pessoas, no caso. Ana Paula, você tem um nome bonito, os olhos... Espero que pinte um quadro do seu desaparecimento e depois o jogue fora, assim como fez comigo.

C.

01.
[O botão rec. do velho gravador é pressionado...]
Olá, oi, oi, Ouvinte. Não pretendo ser breve, porém quero soar natural, como um músico de jazz. Desculpe-me a voz rouca, tem sido uma madrugada difícil, limpar vestígios, esconder corpo, me lavar, comprar cigarros, obstaculizar o nervosismo – alcanço a voz de Deus? -, então fiquei assim, também estou cansado. Estão vendo? Quando quero ser sucinto consigo o contrário, a prolixidade me leva – nos leva – a assuntos outros. Espere um pouco. A criação demanda tempo, a pressa geralmente não leva a coisas boas, as minhas pernas agitadas, o suor frio... Não são bons sinais. Preciso me acalmar. Já lhes disse o que penso do amor? Não? Bem... Penso que não há nada mais catastrófico e belo que o fim e o início dos romances. Sim, porque tudo nesses dois momentos – antagônicos – cheira a loucura, a desespero, a uma vontade transcendental de estar próximo ou longe, dependendo. Caim, Abel e Deus, não vejo, no momento, outro exemplo mais contundente. Não consigo ser claro, corro o risco de continuar a falar e me entenderem mal. Vamos ao amor, puro e lúcido, que é a melhor maneira de me fazer entendido...

02.
Com um beijo no rosto me desperto, vejo apenas um vulto desaparecer, não sei em qual direção. O seu perfume permanece em mim, as suas mãos permanecem... Começo por achar tudo muito estranho: o telefone está tocando. Eu nunca tive telefone em casa. Em volta busco por minhas paredes, são elas, mas cadê as minhas cores? Tudo está branco, as paredes, os móveis, o chão, tudo. Outra coisa: de quem é esta roupa que visto? Tampouco este é o meu penteado. Digo o meu próprio nome, Ana Paula, até ele me parece uma imposição. Tudo é novidade desde que proferi a primeira letra, C.

03.
Quando acordei pude sentir o perfume dele (ele quem?) no meu rosto, embora soubesse que ele (?) não estava ali comigo. Conto muita mentira. Meu apartamento estava todo pintado de branco, absolutamente tudo. Não me lembrava de ter feito aquilo, também não estava de ressaca para justificar uma possível bebedeira e consequente amnésia alcoólica que houvesse motivado o branco de tudo e o esquecimento, então... Eu estava com um vestido de noiva – branco, de virgem – cuja origem também não me recordava. Senti uma necessidade angustiante das minhas tintas para poder colocar desordem nas paredes mas também as tintas estavam brancas, apesar da indicação nas latas: vermelho, amarelo, verde, violeta...
Fui à cozinha, bebi um copo de leite e comi um pedaço de queijo minas. Tentei abrir a janela da cozinha, mas não consegui, embora não estivesse trancada – talvez emperrada. Quando caminhava para a sala, quando pensava em ligar para alguém sem saber quem, o telefone tocou. Atendi.
- Oi?
- Ana Paula?
- Sim. Quem é?
- Zurzo.
- ...
- Você é pintora, não é?
- Sim, eu pinto quadros.
- Tenho um trabalho para você. Cinco mil reais por um quadro encomendado.

04.
Agora trabalho para o Zurzo. Não atendi ao telefone, mas – pergunto-me como – sei tudo o que é para ser feito. Serei sua pintora, ou melhor, a pintora de seu crime. Sim, eu sou pintora. Onde está o telefone que agora a pouco tocava? Concordo com Zurzo, para morrer é necessário existir, e, sendo a morte a condição que põe termo à vida, nada mais justo que pintar o corpo – imortalizado na tela – prestes à putrefação, dando-lhe status de obra-prima, e a seu autor, o assassino, a remissão dos pecados e a elevação da alma.

05.
O Intérieur (Le Viol) do francês Edgar Degas será a inspiração para o trabalho.

06.
Eu tinha um trabalho, e, como todas as pessoas que têm trabalho, eu precisava ir trabalhar. Tomei um banho quente, esfregando forte a esponja contra a pele numa necessidade estranha de me sentir limpa. O banho foi demorado. Quando me sequei com a toalha, algum pouco de sangue havia ficado nela, a fricção me ferira as costas.
Quanto tempo eu gastaria nesse trabalho? É preciso um bom tempo para terminá-lo. O que irei encontrar? Fazia-me perguntas. Procurava o telefone para ligar para Luísa, pedir que ela fosse comigo – ela estudava comigo no Atelier – mas não conseguia encontrá-lo, havia se misturado às paredes e aos móveis, eles e os objetos formavam agora um só corpo – branco e incógnito.
Vesti uma calça branca e uma camiseta branca – a repetição absurda do branco começava a me irritar, até as minhas roupas! Tudo fora pintado dessa cor –, caminhei até a porta, ou melhor, até onde eu sabia que ficava a porta, abri-a e andei pelo corredor que estava todo coberto de branco. Desci as escadas cautelosamente, medindo os degraus. Eu morava no segundo andar e, pelo tempo que desci as escadas, creio ter descido dez andares, até chegar a um vão branco, diferente do hall de entrada do meu prédio. Percebi uma porta aberta do outro lado do corredor, entrei por ela e, pelo vestido de noiva jogado no chão e pelas latas de tinta com indicação das cores, concluí que retornara ao meu apartamento – branco.

07.
Eu não tinha uma história, vi-me obrigada a inventar uma.

08.
Acho que me falta muito para conseguir sair do meu apartamento, ou não falta nada e eu já estou fora dele, distante, até de mim. Tateio as paredes – as minhas paredes – em busca de pistas, indicações, vestígios de um corpo estranho que adentrou a minha casa, porém nada encontro, ou encontro tudo, este branco não é meu. Percorro meu corpo com minhas mãos de estranho, me excito, não há alguém para me conhecer. Ana Paula, eu amo você. Ana Paula sou eu. Eu, estranha em mim mesma. O calor, o tempo, o barulho, não existem.

D.
01.
Escrevo do mesmo lugar dos fatos que aqui narrarei. Retifico-me. Não escrevo, já que não possuo lápis, caneta, pincel, giz, carvão ou qualquer outro material, e, antes, não possuo papel sequer. Narro, portanto. Mas não possuo voz, quais eram os desequilíbrios das minhas cordas vocais? Contradigo-me – sem dizer, de fato. Penso, portanto, e é através de pensamentos que narro.
Senti medo ao chegar aqui – lugar ermo e mal iluminado. Talvez tivesse sentido a sensação de estar sendo observada por um estranho de, não sei, mil olhos, com o poder de me olhar por todos os ângulos e prever os meus movimentos, ver-me nua – em extensão e profundidade. O silêncio impera, é impossível crer que ele fora rompido por um grito – lacônico – da mulher que se soube prestes à tragédia. Tudo é tão calmo agora, e antes...
Quando cheguei aqui tudo estava pronto, a tela, os pincéis, as tintas, apenas me aguardavam, ansiosos e tensos, curiosos com o meu talento. Apesar de mal iluminado, a iluminação disso decorrente é maravilhosa que chega a adiantar-me o gozo. Entendi, no momento, os homens na caverna de Platão, encantados com as sombras, criam-lhes a vida, encorpada, massificada, esdrúxula. Despi-me. A Vida é tão breve e falsa com o corpo a ponto de, no momento de fuga da alma, privar-lhe de cor e calor, tingindo-lhe a tez, secando-lhe os lábios. Nua, como a morta, eu era contradição, porque ainda quente embora tão bela quanto.
O motivo da morte eu não sei precisar, tampouco quanto tempo aquele corpo ali se encontrava. Tinha bonitos seios, como os meus, pequenos e rijos. O rosto não expressava medo, talvez tenha morrido dormindo, que é a maneira como espero morrer. Porém isso é pouco provável, devido aos chupões no pescoço, às marcas de unhadas e socos pelo corpo, à vagina maltratada. Não me cabiam/cabem suposições, nem juízos: ao trabalho, Ana Paula!

02.
A mão esquerda da morta segura um bilhete, amassado, preciso usar da força para pegá-lo. Não há assinatura, não há referência por nome, não nem mesmo gênero. Datilografado: Sinto que se eu lhe dissesse o quanto temia a sua fúria, se soubesse quão forte era, riria de mim, dos meus medos. Agora que é sombra ignota, sua presença é brisa morna, sua ausência mitiga o meu pesar. Sim, é luz turva e isso me entristece, pois era tão jovem, um rio desatinado, mal sentira o gosto da vida - o fel da vida-, tornou-se sombra em dia nublado. Era tão jovem, punha-me tanto medo, restara sombra em meus olhos, fúria em meus olhos.
Como saber quem escreveu o bilhete, se foi a morta ou se foi Zurzo, o seu algoz? Uma coisa é certa, o bilhete não foi colocado em sua mão.

03.
Por todo o corpo está escrito, a batom vermelho, “o desejo tem seu preço”.

04.
A morta é tão bela! Os lábios, tão perfeitos, tão irresistíveis. Beijo-lhe a boca. Não resisto e deito ao seu lado. A sua pele apenas era mais branca que a minha porque em minhas veias e artérias ainda corria sangue. Cabelo de fios negros, levemente ondulados. Acaricio seu rosto, desço a mão pelo pescoço, pelos seios, ventre – não resisto a curiosidade – penetro a sua vagina, onde há resquícios de sexo, o último, talvez delirante.

05.
Cortei a lona e a grampeei em forma de cruz, primeiro a parte superior, depois a lateral, a parte inferior, e a outra lateral, em sentido horário. Com um rolo de espuma dei dez camadas de tinha acrílica branca na tela, o que levou certo tempo. Com um lápis desenhei a morta na tela, resolvi colocá-la deitada em um campo de lírios, minha flor preferida. Pintei as partes mais claras da morta com a cor ocre, utilizei sépia para as partes mais escuras. Preparei a tinta vermelha e realizei a veladura. Retornei com a ocre misturada a tinta branca, para abafar o vermelho, e para as partes escuras fiz uma pasta com cores frias: violeta, verde e azul da prússia, esta mais escura que o próprio preto. Depois pintei os lírios, o sangue e o gozo de Zurzo. Por fim, com o corpo seco, pintei com batom o que havia sido escrito no corpo da morta.

06.
Retiro o lençol que cobre um espelho que está próximo ao corpo da morta e me pinto igual a ela e igual ao quadro, escrevo com batom vermelho a mesma frase em mim. Admiro-me no espelho e sinto uma excitação incomum, uma violência a me arder o corpo. Algo escorre em minha virilha, passo a mão e de mim sai gozo e sangue. Olho para o corpo estirado no chão, para o corpo pintado no quadro, e para mim no espelho. Reconheço-me no chão, reconheço-me na tela, reconheço-me morta.

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VOYEUR

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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